segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Varizes

Serra a grama,
Mama o seio
Declama no mar de centeio
Que ama                     
Que ama

E pede ao sol de janeiro
Que o encha de luz o ano inteiro!
Em chama
Derrama.

Quiçá verá lua cheia
Se o céu explodir, incendeia.
Se meia,
Tão feia.

Jaz nesse canto, entretanto
O timbre d'um homem cigano
Um ano
Profano.

Mataram seu sol veraneio
Cessaram, outrora belo, devaneio
E ainda assim exclama;
Que ama
Que ama.





No metrô

Ei, menino de corpo curvado,
Você aí, com casaco engomado,
Que com as mãos um olhar despreza,
Que tira a beata da reza

Você que foi feito do olhar da Medusa
Que convence a mocinha a tirar a blusa
Que com tanta arrogância despende o cigarro
Que atrai do menino o olhar no carro

Você com sorriso de Monalisa
Que com teu faro confunde a brisa
Que já não se altera ao que está por vir
Cujo semblante se faz sentir

Que desvenda o que a mente atinge
Que derruba do pedestal a Esfinge
Você, garoto, de entranhas ferinas
Que dispersa fumaça naquelas esquinas

Você que possui nos cachos o Sol
Que traz na língua um pequeno anzol
Que carrega nos ombros um peso qualquer
Que conhece de cor perfumes de mulher

Poderia, -perdoe-me por tamanha indiscrição-
Tirar os olhos de minhas pernas e me dizer que horas são?

O segredo das estrelas

A noite vinha depressa, forçando o Sol a se esconder. Era ele um grande covarde, era o que pensava. Lembrava-se de que, quando menina, sempre dizia ao Sol, logo antes desse ir-se:
- Não vá, tolinho, não precisa ir. Não tenha medo do escuro, pois ele não pode fazer-lhe mal algum! Não confias em mim, Solzinho?
Mas ele sempre ia embora. E ela ficava sozinha, e com raiva e medo misturados no confuso coração.
Hoje, nesse fim de tarde gélido, ela via o Sol fugir mais uma vez. E mais uma vez ele a desapontava. Ela bufou, e virou levemente o rosto, como quem diz:
‘- Eu não acredito que confiei em você. Você, mais uma vez, me decepcionou. ’, assim como fazia toda tarde.
Mas aí, como em toda tarde, acontecia uma mágica. Quando o Sol já tocava a linha do horizonte, já louco para ir embora, parava de repente. Era como se, ao ver o que fazia com a menina, se sentisse muito culpado.
E, nessa hora, a menina quase flutuava de alegria. Porque era nessa hora que o Sol vencia um pouquinho a pressa e ficava um pouco mais. E, vendo como ela tremelicava, frágil, embalava-a com um espetáculo de cores que pintava metade do mundo. Cobria seus braços arrepiados com seus raios mais ternos, e abraçava-a com força até que ela soltasse um pequeno sorriso.
E ele sabia que ela o havia perdoado.
Daí, ele ficava tão feliz que brilhava mais, mais do que durante todo o dia e por um segundo a felicidade do Sol resplandecia em cada beijo, em cada passo, em cada lágrima que caía até onde ele alcançava. E o mundo sorria com ele.
E como ela ficava feliz! Ah, mas ela tinha também muita raiva. Porque seria tudo muito, muito mais fácil se ele não se despedisse assim. Ela iria simplesmente odiá-lo para sempre, e pronto.
Mas o Sol nunca ia embora sem se despedir, sem pedir perdão.
E, por mais que ela relutasse, que soubesse que seria assim de novo na tarde seguinte, bastava ele pintar o céu de todas as cores do mundo misturadas, irradiando-as em seus raios para cada cantinho que queria alcançar, e ela estava de novo apaixonada.
Aí, ele ia embora. E ela continuava ali, em seu banco de praça, sentada de olhos fechados, aspirando o restinho do calor de seu maior amante. E esperava a noite bem quietinha. Não importava se estava com frio, ou com medo. Porque pelo Sol, ela vencia o medo.
Mas também porque a despedida do Sol ficava ainda mais bonita seguida da noite. Porque a felicidade dele se espalhava e respingava no céu, e fazia as estrelas. E a menina ria, ria da inveja da lua e do amor do Sol.
E a menina entendia que o Sol também precisava dar luz às outras pessoas. Dar um pouquinho do seu calor a elas. Ele não ia embora de propósito, para magoá-la.
Mas ele sempre deixava um pouquinho dele com ela, para ela cuidar. E ela soube que ele a amava, e confiava nela, e queria que o mundo todo visse isso.
Nessa noite, ela olhou pro céu com força, tentando capturar com um só olhar todos os pedacinhos que o Sol deixou pra ela. Ficou assim por muito, muito tempo, apreciando a declaração secreta que ele a fizera.
E, em meio àquela noite sem nuvens, ela guardou mais uma vez aquele segredo. O segredo que o Sol só confiava a ela. O segredo das estrelas.

Acho que nado contra a corrente

Porque lutas contra o amor
Quando este se faz presente?
Por que, Meu Deus, por quê?
Acho que nado contra a corrente.

Que estupidez também a deles!
Tão difícil está achar,
Num mundo de corações gelados
Alguém pra se compartilhar.

Mas veja bem que sorte a minha
Logo eu, tão ameno!
Achei alguém que vale a pena
Nesse mundo nem tão pequeno.

Se a visse hoje agora,
Não entenderia do que falo.
Não é daquelas que vem embrulhada:
Veio montada em seu próprio cavalo.

Não carrega o próprio sol
Nem cria órbitas, ou o que seja.
Atrai pra si as pequenas luzes
Mesmo as de pouca beleza.

Não tem nome de amada
Não soa bem com rima alguma
Mas seu nome se encaixa no meu
Como só o dela e de mais nenhuma.

Não finge achar graça
De nenhuma de minhas piadas
Mas ri como só ela
De todas as minhas cantadas.

Quando gira os olhos,
Penetra-me bem fundo
E quando sorri de lado
Ensina-me sobre o mundo

Já não me visita faz tempo,
Mas não me venha com conclusões!
Nem tudo é como nas histórias
E se finda em desilusões.

Não está morta nem ferida, nem deixou de me amar
Tampouco virou poeta,
Foi pra guerra ou ficou má.
Apenas tirou umas férias, foi conhecer o mar.

Acho que nado contra a corrente.

O bom escritor


O bom escritor sente. Sente até demais, às vezes. Sabe quando cantar as palavras, sabe quando tocá-las. Sabe pô-las na boca dos outros e sabe escolher seu sabor. Sabe transformá-las em filmes, sabe quando por cores ou deixá-las em preto e branco.
Sabe deixar as palavras mudas, surdas, cegas. Sabe amá-las, sabe ninar cada uma delas e dar nome. Dar nome às palavras? Sim. Mas não pense que o bom escritor é sempre gentil. Ele também sabe ser cruel. Sabe contorcer as palavras e te deixar sem dormir à noite. Sabe juntá-las e separá-las de forma que vão lhe fazer chorar. Sabe retorcê-las em formas que as deixarão tão horripilantes que não poderá olhá-las.
Ah, não pense que ele gosta disso. O bom escritor sofre também com seu fardo, sua quase síndrome de transcrever a própria mente. Mas ele o faz. Será o bom escritor masoquista? Ora, há males que vem para bem. O bom escritor sabe disso. Ele sonha, e seus sonhos são tão consistentes que ele pode moldá-los. Ele brinca com tudo e todos, ele existe e faz existir. Como se sente o bom escritor, tão sensível, tão palpável, quando faz sorrir? O bom escritor não é egoísta. Escreve para si e para quem mais quiser.
Ah, e quando o bom escritor pega no lápis! Aí tudo vale a pena. Ele segura todos os seus tormentos, preenche todos os seus espaços. Ele fica besta e fica esperto. Nem pisca, tentando por em ordem tudo que conhece, tentando filtrar a vida num papel A4. O bom escritor sabe dizer nada e dizer tudo, sabe falar manso, sabe dançar parado. Sabe fazer sentir o que está sentindo. Sabe controlar o tempo. O bom escritor é um mentiroso, ou para ser gentil, um ilusionista. É o inventor de cada passo, que ele anda enquanto escreve.
Mas o bom escritor, acima de tudo, sabe quando não falar nada. Sabe exatamente quando algo é tão bonito, tão bruto, tão impossivelmente chocante e secreto que é melhor não dizê-lo. Por que ele sabe que a palavra escreve muito mais do que os olhos vêem. Mas que existe o indescritível; e ele tem seu valor. O bom escritor silencia, o que os outros não sabem fazer.

Testamento

A aqueles que me amaram,
Deixo o orvalho no verão
A aqueles que por mim choraram,
As cartas no alçapão
Aos poucos que acreditaram
Naquilo que queriam ver
Deixo as utopias guardadas
E o sol do entardecer
Aos beberrões e aos sãos,
E aos desacreditados na vida
Deixo todas as memórias
E as canções de pianista
A aqueles que não me viram
Ou jamais virão a ver
Deixo-lhes os meus sorrisos
E o meu ‘muito prazer’
Aos velhinhos de todo o mundo,
Deixo as cores e a insensatez
E todos os meus antigos
Parceiros de xadrez
A aqueles que amei em silêncio
Que fiquem com a irritação
De procurar no escuro
O caminho para um coração
Aos jovens e derivados
Deixo a eles o prazer,
Deixo a cartela de cigarros
E os pecados que quis cometer
Aos que tem um ao outro
Dou apenas a solidão
Dentre todas as almas grudadas
Há de haver um espaço vão
Aos eternos coadjuvantes
Dou as palmas finais
Atuar em invisível
É o mais triste dos rituais
Aos que tiveram quase tudo
Dou-lhes ainda mais,
Viver pela metade
É morrer sem viver jamais
Aos que nunca existiram
Dou as lágrimas que não chorei
E aos que morrerão comigo
O pouco que ainda sei
E a ti, que tanto amei,
E que tanto me foi querido
Deixo apenas os tormentos
De mais um coração ferido.

Ah, coração

[Antiquíssimo].

Ah, coração pobre, coração mudo.
Fez-me abrir mão de quase tudo.
Deixou-me entre a culpa e culpar os mais fracos.
- Tirou-me de mim arrancando nacos. -

Ah, coração cruel.
Transfigurou-me na mais venenosa cascavel.
Vendou-me a alma e amarrou-me aos acasos.
- Construiu pontes e destruiu barcos. -

Ah, coração mundano.
Prendeu-me em todos os meus enganos.
Embaralhou as certezas e espalhou boatos
- Iludiu-me com todos os falsos fatos. -

Mas, ah, coração pequeno,
Só eu sei como está sofrendo.
Sair da bolha e cair no chão:
- Amargo é o gosto da solidão. –