quarta-feira, 6 de junho de 2012

Não Há o Fim da Poesia; 02/06/12

Não há o fim 
da poesia
Um poema não se pára com grunhidos
Porquesnkjvvfs
e afhkvfdo.

Nem com blitz cones multas:
um poema inadimplente 
tem um quê de mulher madura

e não se pára a poesia com olhares!
todo estopim de rima
continua, magnético,
como amores de transportes públicos.

Mesmo que arda.

Não há o fim
da poesia
nem quando acaba o amor

os entremeios sentimentalistas
são como o fim do verso
são como o ar
que fica

onde caberia toda a virtude do lirismo e há nada
[como ao final verídico de um filme muito triste
a falta da mentira causa asco
livre de culpa]

e gera uma revolta louca e eterna
até somente a próxima estrofe,
estação ou vida

já que se encomprida
ah!
e que se encomprida
certamente
na próxima estrofe,
estação ou vida. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

O Grito Da Felicidade; 25/04/12



 Eu curtia uma magrinha. Mas magrinha assim, de espetar e bater osso no osso, que se caísse de finca na água furava o ladrilho. Na época de colégio, era chegar uma girafinha, uma cabo-de-vassoura... E eu ir atrás carregando meus buquês. Pessoal implicava. "Ezequiel tá embaitolando", diziam, "e não é de hoje!". Lá pelos quinze, dezesseis, um tio preocupou-se a sério. Eu tinha primo na capital no páreo pra governador, ano de eleição; pensa numa dessas na boca da oposição! Fecharam-se à sala. Na época, minha garota tinha ido pro estrangeiro eu andava mesmo muito sem jeito de olhar as outras - todas de rebolado forte, sem saboneteira. Viver era um sacrilégio. 
 Terminada a reunião, eu já pensava nas ideias. Iam querer me casar. Iam, iam querer me casar e me pôr para morar com ela, ela que ia ser uma dessas "mulherão", parecer jogador de críquete. Não ia nem ter o ossinho - ai! - da base das costas. Um dia teria filhos e seria o fim de tudo; os quadris ocupariam a cama. Manchete: morre o marido esmagado. Moleque que era, só fazia suar. 
 Quando me veio o tio, chorei histérico. Acabou que o resolvido era carregarem-me de todo jeito ao prostíbulo da Joyce(a mesma Joyce que meu pai chamava quando bêbado) e caparem-me a virgindade enquanto essa existia. Fiz que era alívio, tomei um banho. Pensei na moça com quem deixava de casar e conhecer, nela toda de véus e papagaiagens. Senti saudade pela primeira vez das coisas ruins que não chegam a acontecer. Chorei de novo.

Lá chegando, ainda pensava na minha magrinha. Na cavalona da imaginação. Acho que olhando bem nos olhos daquelas putas, essas paixões antigas todas me envelheceram no peito. Senti que eram ossos do ofício estar ali - quis até ter tido bigode. Era um mártir da pura raça, o Getúlio entregando a presidência, o terno preto do rei Roberto. Nesse acochambramento heroico, acabei por deixar escolherem-me a minha. 
Tesa, meio alta, muito prática. Fiquei mais tenso que se fosse gorda. Joguei conversa. Eu nunca tinha visto uma mulher com tão pouca roupa e nela, tão escrachada, procurei qualquer coisa sobrando, como de costume. Uma gordura, coxas roliças, braços cheinhos. Faltava tudo, perfeitamente encovada. Até a voz riscava. Constatei: não era desnutrida, era infeliz.
A gente se amou demais. Como era louca essa coisa de sexo, uns bichos se esfolando, uma alegria tremenda. Ela tinha nas costas ossinhos que voavam. Gritou um tanto. 

A sustança de um dos gritos me afagou lá dentro. Fomos embora em seguida. Ainda em horas passadas eu sentia o estufamento daquele grito. A braguilha custou a fechar. O tio, óbvio, deu-se por satisfeito, no dia e em muitos depois. Eu, o Ezequiel das vassouras, deslanchei a pegar mulheres mais cheias, mulheres várias. É claro que jamais deixei de curtir magrinhas, mas era ver uns ossinhos saltados e lembrar do grito que aquela coitada deu. E lembrar do grito era também lembrar de saber que a felicidade é uma coisa danada de gorda.

Um Trato Na Tempestade; finzinho de abril


Quando pensava em bruma - névoa
e em trégua, então? Que covardia...
Iam as horas, o barco, a proa e espuma;
Tudo era réstia de guerra na baía.

Se vinha a areia e aos pés acarinhava
Minha pele quente a desmentia
Abocanhava um punhado, contornava,
E entregava num escarro à agua fria

Mas hoje o mar parecia tão coitado
[Acho que até quem já não mais se debatia
Mereceu menos prece de vida]

Que todo amor de meu peito fustigado
Desceu chorando o sangue da guerrilha,
E amou, mais que à ferida,
O beijo que a adormecia...

Retórica capitalista; 02/05/12


Mais veras as faces nos cruzados! 
tu jazes, fera, entre crustáceos,
e um a cada três de teus amigos
nasce fera e por vinténs é corrompido

tinhas na arte por costume una virtude
e um alento era ao salvá-la, em pecado
desse último livrar, amiúde
toda presa da vil sina de predado

vês no entanto o que diz vosso dinheiro?
louvai a Deus, buscai a liberdade,
mantém a idade de contribuinte

pois é mau visto o dom de não ser feio
por dentro; eis que no externo vale a idade
ser fera ou nada: já se não distingue. 

Dois Poemas de Beira de Estrada.



Sambinha estrangeiro; 14/05/12 – 21:00



Me quis inteira,não me quis por mim
Como se eu fosse feira só pra tua rua
[como se eu fosse feira!]
e minha oliva feia por não ser jasmim 


e o verde no laço de fita que tão bem lhe fica
fosse menos verde por não ser carmim. 


Lá pro seu cinema
uma obra-prima 
que só se explica do meio pro fim
não tem cabimento
e faz você tão bem... 


melhor ouvir o vento.
Não me quis assim.


Tão fácil prometer amor a quem não tem.
-
Madrugada; 11/05/12 




De nada adianta meu corpo no teu,
à noite, às periferias!
é o beco o teu bosque, é a mágoa tua praia
te risco descalça do meu pensamento
coloco a cintura nas calças
pondero teu desbalanço...
pudera! o céu dessa tua cidade é hotel sem estrelas.

depois, 
manhã de lavanda,
pressinto nas coisas que caem dos olhos
enquanto ainda fechados
que o teu coração é pigarro do meu

ensaio um sorriso: 
até desvario meu
bagunça teu rijo critério

e qualquer sinal de improviso
[como eu fugir do soneto]
lhe cheira a mistério...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Cartão Postal; 11/04/2012 - 23:09

O eu-lírico ainda nem tem forma
quando me volta à mente a plataforma
de Congonhas


É mal-pago, sonegado,
teve o peito violado por dinheiro?
cardíaco, fumante passivo
sujeito aborrecido
com política?


Tem veia artística.


Digo pela barba que ele veste, pelo homem que ele traja.
Porque viaja.


Para eu-lírico é mais eu do que lirismo


e se distraio, ele é história
e se ele fica, depois do tempo,
já não me importa.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Santa e o Conde.

Subiu às tontas a escada, tendo deixado a sala num rompante e sendo deveras alto - o sangue, se não custava a percorrer o fígado cirrótico, era vadio em se tratando de encéfalo.  Bufou duas vezes à porta antes de vê-la propriamente: o que parecera trabalho de fino entalhe no instante de delírio revelou-se apenas bolor e leveduras ao redor do puxador rústico, da maçaneta enorme. Torceu o nariz. Nada fedia, mas sufocava e sentia asco.
Entrou. Em primeiro, pensou estar novamente mal das circulações e apoiou-se à mão, flácido, febril; mas tão logo aconchegou os olhos, viu que a luz foi que o atordoara. Não que brilhasse o Sol num tom de meio-dia, pelo contrário! O quarto era de pé direito baixo, quase que galponesco, e todo o seu frescor se dava por conta de uma única janela aberta para o lado de fora, que o vento contornava cantando mesmo ao bater da porta. Não, a luz que preenchia o cômodo e o enaltecia era difusa, denunciava a sujeira do ar e denotava até um certo cintilado, como nevasse e os ciscos refratassem muito.
Havia uma mesa deteriorando-se à esquerda e seus pés estavam encalçados com argila, dando-lhes um aspecto gaudiano, élfico. Sob eles uma diversidade enorme de cores endurecidas, têmperas, manchas de tinta que lhe remeteram a sangue e ao colo de sua noiva na noite do dia primeiro, assentado em rubis. Era agora mais calmo e arguto; andava um tanto e voltava, recolhia o braço após tocar alguns dos toldos quentes pelo dia, aveludados; imaginava um divã, natureza-morta... Sentiu-se feio. O chão de tábua corrida, os pinceis num vaso de violetas, tudo era da mais degenerada beleza. E ele, ainda empertigado, parecia muito ordinário, muito justificado. Olhou os pés e estes causaram tamanha náusea que careceu despi-los.
Enquanto num esforço ridículo, acocorado, suando pelas penugens do bigode, sentindo olearem-se as orelhas e lábios – lambendo-os muito -, olhou para trás. A atmosfera etérea e bucólica não permitia haver distinções mundanas como luz e sombra, som e silêncio: tudo era fosco e brando, e branco. E então, ela. Ela que não sorria nem flertava, ela emergindo, parando a música que por anos a fio tocara em sua cabeça, imperceptivelmente. Ela pisando descalça uma barata e acendendo nervosa um cigarro, ela que estancada ainda pairava, cujos olhos indagavam obscenidades, sem que ela soubesse. Entornou o rosto.
O silêncio litúrgico o tensionava, à medida do possível. Era como tivesse a garganta pressionada por um raquítico sádico. Por que ela o olhava apenas, quem era, para incumbi-lo à tarefa de olhá-la de volta? Viu-a vacilar e quando os pensou semelhantes, caiu de vergonha. Chorava. Sobressaltado com a constatação, caiu de novo; fazia barulho e sabia, já não era o homem que o fizeram, já não era Murilo, jamais o pai o amara, nunca cumpriria sua promessa.
Pensando-se risível, depois coitado, demasiado compreendido, procurou por seus braços. Ela sentou-se como uma criança e há de ter dito alguma coisa – talvez já estivesse sentada ali desde a infância, esperando por ele e sua menarca de choro. Talvez tivesse buscado quem despir naqueles modos, talvez todos os quadros em redor pintassem olhos como os dela. Chorou mais forte.
Ao fim, enquanto ele apegava-se às feridas, ela fez-se ereta. Lembrou-se de quando subia as escadas e sufocou novamente, mas não o expôs. Se antes retorceria a boca, mimado e virgem, agora a mordia e cessava. O tempo continuou passando deliberadamente sem que qualquer um dos dois sentisse e sem que voltassem a reconhecer a presença do outro, ela muito tranquila, alheia; ele num contato penoso com o próprio racional. Aliás, o tempo dali em diante seria sempre o daquela sala, por mais que não o soubesse Murilo. Sempre liquefeito e turvo, muito fácil de acompanhar, e também muito triste e vago.
Poderiam viver de sonhos, não fosse ela, sempre quebrando suas conformidades e brincando de bater por acarinhar. Saiu, muda. Saiu muito certa e foi como jamais tivesse existido, sem que a ouvisse, sem que ele mostrasse a ela seus novos olhos, suas teses, seus anos. Saiu e enquanto saía, ele rezou calado para que a música não tornasse, constatando desolado em seguida que ela já o fizera: só custou-lhe um pouco para percebê-la clara. Doeu-lhe o peito a consciência de o tédio da que o deixara dever-se a essa capacidade louca dos sábios de prever o mundo. Calçou-se.
Murilo desceu as escadas sem quaisquer sinais de taquicardia – procurou-a, até, respirando um tanto rápido, pulando mais de um degrau por vez. Sabia entretanto da inutilidade do ato, e bufou. Nunca mais sentiria nervoso, o existir era insolúvel, a verdade salvara sua saúde. Lembraria ainda por duas vezes da tarde nobre, dos braços cálidos, do nevoeiro. Depois, música.  E nos livros, culparia a vida por tê-lo desiludido.